domingo, 19 de outubro de 2008

OPINIÃO: Os Cristãos nas Eleições


A principal arma dos cidadãos no regime democrático é o voto. É através dele que o povo pode fazer valer a sua vontade e o seu legítimo poder. É pelo voto que cada cidadão participa dos destinos de sua nação. É pelo voto que ajuda a nação a mudar de rumo, que elimina os maus governantes.

Diz a nossa Constituição que “todo poder emana do povo e que em seu nome é exercido”. Portanto, como dizem os sociólogos, “todo povo tem o governo que merece”. O governante sai do meio do povo e é escolhido pelo povo.

O cristão precisa exercer sua cidadania na construção de uma sociedade justa e solidária. Por isso é importante despertar o senso global das responsabilidades políticas.

Se o povo sabe votar bem e escolher homens e mulheres honestos e capazes para dirigir a cidade, o estado e a nação, então, esse povo terá bons governantes, honestos e justos, que saberão priorizar bens os recursos públicos, os impostos pagos pelos cidadãos, etc. No entanto, se o povo votar mal, escolher seus governantes por motivos escusos e egoístas, interesseiros, sem escolher bem os candidatos, então, terá certamente governantes que serão politiqueiros, e não políticos. Qual é a diferença entre uns e outros?

O político verdadeiro é aquele que governa e dirige “para o bem comum”; para o bem do povo; priorizando certamente os mais necessitados e as medidas mais urgentes que beneficiem a todos de modo geral. O verdadeiro político decide em função do bem comum e não de seus interesses eleitoreiros ou corruptos. Infelizmente muitos deles “se servem da política” ao invés de servir ao povo; muitos fazem da oportunidade de exercer um cargo público uma maneira de se enriquecer, empregar os familiares mais próximos, etc. É por isso que hoje o conceito dos políticos está lá em baixo; mas o povo tem culpa também nisso, pois é ele quem elege esses maus políticos. Se o povo escolhesse melhor, com mais consciência e seriedade, conhecendo cada um, as coisas seriam diferentes.

O verdadeiro político olha somente para o bem dos cidadãos e não para os seus interesses pessoais; não fica de olho “na próxima eleição”, mas realiza hoje o que é necessário para a cidade e para o povo, independente se isto ou aquilo que faz vai lhe dar mais ou menos votos. Alias, o que dá voto é exatamente o bom governo, a honestidade e o caráter do governante.

Quantas obras importantes e urgentes de serem realizadas não são feitas, simplesmente porque “não dão votos”. Mas, a politicagem um dia aparece clara aos olhos do povo. Disse alguém que é possível enganar a muitos durante pouco tempo, ou a poucos durante muito tempo, mas que é impossível enganar a todos o tempo todo. Um dia a casa cai.

Para o cristão, a política tem uma importância enorme, tanto para aquele que é simples eleitor, como para aquele que é candidato a algum cargo. O eleitor cristão precisa ter em mente que quando ele vota está exercendo um certo poder, e Jesus disse que todo poder vem do alto e é dado por Deus.

Nos regimes totalitários, como o comunismo, o povo não pode votar com liberdade; as eleições são “simulacros de eleições”; mas nas verdadeiras democracias o povo vota livremente. Então o cristão tem dupla responsabilidade de votar bem, como cristão e como cidadão.
É pecado “vender” o seu voto ou votar mal; isto é, dar o seu voto a alguém que não merece, que ele sabe que não é competente e nem honesto. O cristão não pode votar com “segundas intenções”, só porque aquele candidato vai-lhe ajudar depois de eleito, com um emprego, facilidades outras, etc. O cristão deve votar com a consciência, escolhendo entre todos os candidatos o melhor, independente de interesses, sentimentalismos ou grau de parentesco ou amizade. Também disso vamos prestar contas a Deus um dia.

O cristão não pode votar em candidatos que sejam inimigos da fé católica ou da Igreja; especialmente aqueles que apóiam os procedimentos morais condenados pela Igreja: aborto, distribuição de “camisinhas”, distribuição de pílulas do dia seguinte, que são abortivas, eutanásia, manipulação de embriões.

No entanto; às vezes o cristão pode se ver diante de uma situação em que não sabe em quem votar, uma vez que nenhum dos candidatos merecem o seu voto e não lhe inspiram confiança. O que fazer? Votar em branco? Anular o voto? Não; esta medida não resolve nada porque alguém será eleito de qualquer forma.

O que se deve fazer é votar no “menos ruim”, já que todos lhe parecem ruins. Votando em branco ou anulando o voto, podemos estar beneficiando o mais ruim.

Para que o cristão tenha uma participação ativa na política é necessário incentivar o levantamento e o debate dos problemas sociais em cada município, os problemas do estado e do pais. Sem informação, sem estar inteirados dos problemas do povo, não se pode votar bem. É importante participar de debates, diálogos entre amigos e familiares no sentido de instruir os que não têm informações corretas para que não sejam manipulados pelas propostas eleitoreiras.

Felipe Aquino é doutor em Física pela UNESP e membro do Conselho Diretor
da Fundação João Paulo II, São Paulo, Outubro de 2008

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domingo, 12 de outubro de 2008

PORTICO: A Sede de Autonomia Absoluta


Chegou um momento na história onde aconteceu algo que nunca tinha acontecido na história do homem, nos diz Thomas Stearns Eliot, Premio Nobel de 1948, nos Coros de "A Rocha". Trata-se do secularismo. Oferecemos-lhes esta semana, junto a Eliot, um texto de Luigi Giussani, que indica como este fenômeno cindiu a cultura ocidental incorporando a idéia da absoluta autonomia do homem através da razão e do progresso. Um breve mas interesante texto do Papa João Paulo II nos sugere que não é produto do acaso. Por fim, uma colaboração sobre o secularismo como ditadura intolerante imposta, ponta do iceberg de uma cultura em crise por ter desmantelado a ideia de Transcendência. Boa Leitura...

OS EDITORES

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Aconteceu algo que não tinha acontecido nunca...


No Princípio DEUS criou o mundo.
[...] E quando houve homens
de múltiplas maneiras, atormentados,
procuraram encaminhar-se para DEUS
Cegamente e em vão, porque o homem é uma coisa vã,
e o homem sem DEUS é semente arrastada pelo vento:
levada em mil sentidos, sem encontrar lugar para pousar e germinar.
Iam atrás da luz e atrás das sombras,
e a luz impelia-os para a luz e as sombras conduziam-nos às trevas,
adorando serpentes ou árvores,
adorando demônios em vez de nada:
conclamando para uma vida além da vida,
por um êxtases não vindo da carne.
Estéril e vazío. Estéril e vazío.
E a treva por cima das profundezas.

[...] E o Espírito pairava sobre as águas,
e os homens que se volviam à luz, e eram conhecidos pela luz,
inverataram as Religiões Superiores;
e as Religioes Superiores eram boas
e levaram aos homens da luz à luz,
ao conhecimento do Bem e do Mal.
Porem, sua luz estava sempre cercada
e traspassada pelas trevas
como o ar dos mares mornos
esta penetrado pelo calmo bafo morto da Corrente do Ártico;
E quedaram-se em ponto morto,
ponto morto animado por um vislumbre de vida,
[...] Estéril e vazío. Estéril e vazío.
E a treva à face do abismo.

Então adveio, em um momento predeterminado,
um momento no tempo e do tempo,
Um momento não fora do tempo, mas no tempo,
naquilo que chamamos história:
cortando, cindindo a esfera do tempo,
um momento no tempo porém não como um momento do tempo,
Um momento no tempo, porém o tempo se fez mediante este momento
pois sem significado não há tempo,
e este momento do tempo deu-lhe o significado.

Então pareceu como se os homens foram avançar
da luz à luz, na luz do Verbo,
através da Paixão e do Sacrifício
salvados a despeito da natureza negativa
que o ser de cada qual continha;
bestiais como sempre, carnais, buscando-se a si mesmos como sempre,
egoístas e cegos como sempre,
E ainda assim, sempre lutando, sempre reafirmando-se,
sempre recomeçando a marcha pelo caminho que fora iluminado pela luz;
Freqüentemente detendo-se, vagando, perdendo-se, retardando-se,
voltando, mas jamais seguindo outro caminho.

Porém parece que aconteceu algo que não tinha acontecido nunca:
ainda não sabemos bem quando, nem por que,
nem como, nem onde.
Os homens deixaram a DEUS não por outros deuses,
dizem, senão por nenhum deus,
e isso nunca havia ocorrido, nunca
Que os homens simultaneamente negassem aos deuses
e adorassem a deuses, professando primeiro a Razão,
e logo o Dinheiro, e o Poder, e o que chamam Vida, ou Raça, ou Dialética.
A Igreja rejeitada, a torre derrubada, os sinos tirados,
o que temos que fazer, estar parados com as mãos vazias
e as palmas para cima em uma idade que avança progressivamente para atrás?

[...] Oh Pai damos a benvinda as tuas palavras
e cobraremos valor para o futuro
lembrando o pasado...
[...] Lembrai-vos da fé...
Nossa época é uma época de virtude moderada
e de vício moderado,
na qual os homens não deixam a Cruz
pois nunca a querem abraçar.
Mas nada é impossivel, nada,
para os homens de fé e convicção...
Oh DEUS, ajudai-nos.

THOMAS STEARNS ELIOT, Os Coros de "A Rocha", VII e VIII, Londres, 1934.

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O Homem como Divo


Podemos dizer que até o final da Idade Média as sociedades (...) identificavam como origem, destino e ideal do caminho a algo maior: Deus. A variedade dos fatores que constituem a personalidade e a convivência humana tendiam a uma unidade, tendiam a compor-se e a realizar-se em uma unidade, assegurando, dessa forma, uma concepção não-fragmentada da pessoa e, conseqüentemente, do cosmo e da história. O empenho ideal que caracteriza a Idade Média propunha a figura do santo como imagem exemplar da personalidade humana: uma figura de homem que tinha realizado a unidade de si mesmo com o seu destino. A grande mudança (vinda com a modernidade) é a fragmentação dessa unidade e dessa figura de homem.

[...] A santidade como ideal do homem projetava-o na direção de algo maior que ele e, nesta tendência rumo a um outro, a perfeição era, evidentemente, a unidade de todos os fatores humanos em Deus. Se o nexo com aquilo que é maior que o homem é cancelado, a perfeição como totalidade de fatores não pode existir, não é mais concebível. O que pode existir, então, é uma performance particular em um ou outro campo, uma capacidade particular neste ou naquele campo da expressividade humana. Desse ponto em diante, a ordem da cultura que passa a influenciar a sociedade é como que partida em pedaços numa parcialidade de enfoques. O ideal medieval da santidade é substituído (...) pelo Divo: não mais Deus em quem tudo deve confluir numa unidade harmônica, mas o Divo , o ídolo, o homem capaz que conta com suas próprias forças.

Toda esta parcialidade, esta ausência de unidade caracterizará o fio da cultura moderna, de seu pensamento e, conseqüentemente, de sua práxis (...) O Divo substitui Deus hoje.

[...] Mas nem mesmo nesta idéia nova de homem, entendido de modo inteiramente autônomo e capaz de realizar-se a si mesmo e a seus próprios projetos, deus é necessariamente eliminado. O que acontece é muito mais sutil, e foi muito bem sintetizado por Cornélio Fabro: “Deus, se existe, não interessa”, Deus não interessa para o homem concreto, para os seus interesses, para os seus problemas. Nesse campo, o homem é a medida de si mesmo, senhor de si mesmo, fonte da criação do projeto e da energia concreta para sua realização, incluindo a diretriz ética que isso implica.

Portanto, no âmbito dos problemas humanos, Deus, se existe, é como se não existisse. Realiza-se, assim, a divisão entre o sagrado e o profano, como se pudesse existir alguma coisa fora do "templo" de Deus que é o cosmo inteiro.

Assim, na medida que o racionalismo, através do poder político –depois da Revolução Francesa– assume definitivamente aquele divisão, ela se torna lentamente lugar-comum dos homens de saber, determinar o clima cultural, torna-se cultura dominante. A partir daí, através, inclusive, da educação estatal, depois de séculos, esta postura penetra o coração e a mente de todo o povo, tornado-se mentalidade social.

Quanto mais essa mentalidade se dilata, mais Deus se torna distantee não é tolerado se pretende intervir no destino do qual o homem se considera dono.

O termo com o qual se designa esta concepção, enquanto mentalidade social que se estabelece através de uma influência cultural que se tornou dominante por meio do poder e da educação pública, é laicismo. Ele é “a profissão de pertença do homem a si mesmo e basta” (Cornélio Fabro), é a presunção de uma autonomia total por parte do homem.

Ele é a causa da profunda dificuldade na qual a consciência religiosa se encontra hoje. Um deus que não tenha nada a ver com a vida é um Deus, no mínimo, inútil. Portanto, quanto mais um homem é ativo, interessado pela vida e nela empenhado, tanto mais sentiria estar perdendo tempo se parasse a fim de considerar um Deus assim. Deus se reduz a uma opção mais ou menos privada, a um patético conforto psicológico, a uma peça de museus. Para um homem que experimentasse febrilmente a brevidade do tempo e as muitas tarefas a realizar, aquele Deus não só é inútil mas também prejudicial, é o “ópio do povo”. Uma sociedade moldada por semelhante mentalidade pode não ser formalmente atéia, mas é de fato.

Um Deus assim não só é inútil e prejudicial como também não é Deus. Um deus que não interessa à atividade do homem, à sua construção, ao seu caminho rumo ao destino, constitui, na melhor das hipóteses, um desperdício de tempo e, em última análise, é com certeza algo a ser evitado, eliminado. A fórmula “Deus, se existe, não interessa” conduz coerentemente à conclusão “Deus não existe” .

A meu ver, o verdadeiro inimigo de uma religiosidade autêntica não é tanto o ateísmo, mas este laicismo: um ámbito sacro que não penetre no campo concreto dos interesses cotidianos do homem torna a relação com Deus concebível somente como totalmente subjetiva. A realidade humana continua com seus problemas e suas preocupações, à mercê dos critérios do homem, facilmente determinável, na prática, pelo poder.

Os valores fundamentais que a passagem para a época moderna, iluminista e secularizada, abalou e deturpou em relação à tradição cultural cristã são, antes de mais nada... uma redução do conceito de razão, (depois) uma segunda redução é operada sobre a imagem liberdade, (e, logo) uma terceira mudança profunda é operada na idéia de consciência.

LUIGI GIUSSANI, A Consciência Religiosa no Homem Moderno, Milão, 1985.

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Um Esforço Muito Bem Programado


Hoje deve-se falar (mais que do silêncio de Deus) da vontade de sufocar a voz de Deus. Este desejo de sufocar a voz de Deus está muito bem programado; muitos fazem qualquer coisa para que não se ouça Sua voz, e se ouça só a voz do homem, que não tem nada que oferecer que não seja terreno. E, as vezes, tal oferta leva consigo a destruição em proporções cósmicas. Não é esta a trágica histórica de nosso século?

[...] Quem é o responsável por isso? Diria que o responsável é a luta contra Deus, a sistemática eliminação de quanto há de cristão, uma luta que em grande medida domina há três séculos o pensamento e a vida do Ocidente. O coletivismo marxista não foi mais que uma “versão piorada” deste programa. Pode-se dizer que hoje semelhante programa se está manifestando em toda sua periculosidade e, ao mesmo tempo, com toda sua debilidade.

PAPA JOÃO PAULO II, Cruzando o Limiar da Esperança, Roma, 1994.

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OPINIÃO: A Desconstrução da Transcendência


A cultura ocidental, como cultura da transcendência que se desdobra em experiência ética do Bem, experiência intelectiva (noética) da Verdade e experiência metafísico-religiosa do Ser, desde o advento dos tempos modernos, vem sendo desmantelada.

A experiência ética, cuja condição de possibilidade reside na existência de um Bem supremo e objetivo, e que caracterizou a nossa cultura durante quase três mil anos, vem sendo minada, nos últimos quinhentos anos, com a negação progressiva do Bem transcendente.

Este Bem é o valor que conduz a liberdade humana a superar os limites da natureza, colocando uma lei absoluta acima da convenção social que seria responsável por definir como o homem deve agir.

A rejeição deste Bem supremo reduz a liberdade humana ao universo da particularidade da sensação, renegando a existência de valores universais. Esta é a chamada crise ética em que nós estamos imersos na pós-modernidade.

A experiência noética da Verdade, coloca os limites e a possibilidade de se conhecer a realidade objetivamente. A existência de uma Verdade transcendente indica o que o homem pode conhecer, definindo o que realmente é necessário por ser universal.

A negação desta Verdade absoluta retira o sentido da vida humana, pois não existe o necessário, mas apenas o contingente que se reduz na particularidade da sensação, colocando em xeque toda possibilidade de conhecimento da realidade.

Apesar desta negação ainda não ter atingido as ciências, último refúgio do conhecimento humano, nega a forma de conhecimento mais importante que consiste na busca do sentido humano das coisas, causando o ritmo desenfreado e doentio de nossa atual civilização, que se encontra em crise de sentido.

A experiência metafísico-religiosa do Ser, coroa das experiências noética e ética, coloca o ser humano diante da existência em contato com um Absoluto necessariamente existente. A forma mais poderosa e eficaz na história do ocidente foi e continua sendo o cristianismo.

A ligação com o Absoluto transcendente o qual se identifica plenamente com o Bem e a Verdade, declarando-se amor na Revelação bíblico cristã indica um modo de vida esplêndido caracterizado pelo entrelaçamento das experiências do amor espiritual e do conhecimento espiritual que geram um modo de vida ético fundado no Bem e um verdadeiro sentido para a vida humana.

A negação do Absoluto em nossos tempos conduz a um processo de profunda desumanização que reduz o ser humano a uma máquina biológica que não apresenta propósito algum por ter advindo de um caos original.

No momento em que o sujeito e não, o Absoluto, passa a ser o fundamento da verdade e da ação humana e em que se abandona a experiência religiosa por julgá-la uma fase de imaturidade da história humana, esta profunda crise de valores em que vivemos se anuncia com força e poder.

Nossa atual situação leva-nos a assumir a optar entre a negação completa da vida espiritual reduzindo o humano ao universo do particular das sensações num ethos naturalista, ou a reproposição da questão da transcendência, única saída que recolocaria a forma mais magnífica de vida, restabelecendo o curso do ciclo civilizatório conhecido como ocidental.

Fábio Cristiano Rabelo, membro do Nuec, Belo Horizonte, setembro de 2008.

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domingo, 5 de outubro de 2008

PORTICO: Do Politico no Homem


Tempo político. Tempo de juízo. O voto torna-se ato moral. Ele contribui para edificar ou ferir o bem comum. E a responsabilidade não termina ali, apenas começa. Não votar, se abster, é também ato político, omissão lamentável. Mas, hoje, entende-se corretamente política? Por acaso não é sinônimo de necessária corrupção? É política jogo de mascaras e interesses particulares como parece insinuar o pintor Bill Stoneham em Body Politic, na imagem acima? Para trazer ar limpo à reflexão lhes propomos dois velhos e muito atuais textos, um de Aristóteles e outro de Santo Tomás de Aquino. Neles a política é uma nobre atividade que gera uma virtuosa vida social. Sua finalidade é o bem comum e nunca o interesse particular. A politeia é a forma virtuosa do governo de muitos, e a democracia sua forma corrompida e corruptora. Afirmação atual e instigante para nossa realidade brasileira. Façamos politeia. Esta é a motivação do terceiro texto, Tomás Moro padroeiro dos Políticos.

Aproveitem.

OS EDITORES

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As raizes do Político


É evidente que qualquer cidade é uma certa comunidade e também toda comunidade está constituída visando a um bem. Assim, todas as comunidades pretendem como finalidade algum bem; mas sobretudo pretende o bem superior aquela que é superior e compreende às outras. Esta é que chamamos de cidade e comunidade cívica.

[...] A principal sociedade natural, que é a família, formou-se, portanto, da dupla reunião do homem e da mulher... Assim, a família é a sociedade cotidiana formada pela natureza e composta de pessoas que comem, como diz Carondas, o mesmo pão e se esquentam, como diz Epimênides de Creta, com o mesmo fogo.
A sociedade que em seguida se formou de várias casas chama-se aldeia e se assemelha perfeitamente à primeira sociedade natural, com a diferença de não ser de todos os momentos, nem de uma frequência tão contínua. Ela contém as crianças e as criancinhas, todas alimentadas com o mesmo leite. De qualquer modo, trata-se de uma colônia tirada da primeira pela natureza.

[...] A sociedade que se formou da reunião de várias aldeias constitui a Cidade, que tem a faculdade de se bastar a si mesma, sendo organizada não apenas para conservar a existência, mas também para buscar o bem-estar. Esta sociedade, portanto, também está nos desígnios da natureza. [...] Toda Cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero: Um ser sem lar, sem família e sem leis. Aquele que fosse assim por natureza só respiraria a guerra, não sendo detido por nenhum freio e, como uma ave de rapina, estaria sempre pronto para cair sobre os outros.

Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. A natureza, que nada faz em vão, concedeu apenas a ele o dom da palavra, que não devemos confundir com os sons da voz. Estes são apenas a expressão de sensações agradáveis ou desagradáveis, de que os outros animais são, como nós, capazes. A natureza deu-lhes um órgão limitado a este único efeito; nós, porém, temos de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto. Este comércio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil.

Quer dizer, que por natureza, que a cidade é anterior à casa e cada um de nós. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da Cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto. Assim, a inclinação natural leva os homens a este gênero de sociedade.

[...] O homem é, por sua natureza... animal político, feito para a sociedade civil. Assim, mesmo que não tivéssemos necessidade uns dos outros, não deixaríamos de desejar viver juntos. Na verdade, o interesse comum também nos une, pois cada um aí encontra meios de viver melhor. Eis, portanto, o nosso fim principal, comum a todos e a cada um em particular.

[...] Mas não é apenas para viver juntos, mas sim para bem viver juntos que se fez o Estado... Aqueles que se propõem dar aos Estados uma boa constituição prestam atenção principalmente nas virtudes e nos vícios que interessam à sociedade civil, e não há nenhuma dúvida de que a verdadeira Cidade (a que não o é somente de nome) deve estimar acima de tudo a virtude.

Sem isso, não será mais do que uma liga ou associação de armas, diferindo das outras ligas apenas pelo lugar, isto é, pela circunstância indiferente da proximidade ou do afastamento respectivo dos membros. Sua lei não é senão uma simples convenção de garantia, capaz, diz o sofista Licefron, de mantê-los no dever recíproco, mas incapaz de torná-los bons e honestos cidadãos.

[...] A Cidade não é só uma comunidade de lugar, nem foi instituída simplesmente para se defender contra as injustiças de outrem ou para estabelecer comércio. Tudo isso deve existir antes da formação do Estado, mas não basta para constituí-lo. A Cidade é uma sociedade estabelecida, com casas e famílias, para viver bem, isto é, para se levar uma vida perfeita e que se baste a si mesma.... O fim da sociedade civil é, portanto, viver bem; todas as suas instituições não são senão meios para isso, e a própria Cidade é apenas uma grande comunidade de famílias e de aldeias em que a vida encontra todos estes meios de perfeição e de suficiência. É isto o que chamamos uma vida feliz e honesta. A sociedade civil é, pois, menos uma sociedade de vida comum do que uma sociedade de honra e de virtude.

[...] Não entra no plano da Política determinar o que pode convir a cada indivíduo, mas sim o que convém à pluralidade... Não há nenhuma dúvida de que o melhor governo seja aquele no qual cada um encontre a melhor maneira de viver feliz... Não existe Estado feliz por si mesmo senão o que se constitui sobre as bases da honestidade. Todos os regimes que visam pelo bem comum são retos e quantos defendem só o interesse particular dos governantes são errados e injustos.

ARISTOTELES. Politica. Escrito no ano 330 e 323 a.C.

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O governante e o bem comum

Logo, se é natural ao homem o viver em sociedade de muitos, cumpre que haja, entre os homens, algo pelo que seja governada a multidão. Que, se houvera muitos homens e tratasse cada um do que lhe conviesse, dispersar-se-ia a multidão em diversidade, caso também não houvesse algo cuidando do que pertence ao bem da multidão, assim como se corromperia o corpo do homem e de qualquer animal, se não existira alguma potência regedora comum, visando ao bem comum de todos os membros. Isso podendo, diz Salomão (Pr 11, 14): “Onde não há governante, dissipar-se-á o povo”. E, por certo, é razoável pois não são idênticos o próprio e o comum. O que é próprio divide, e o comum une. Aos diversos correspondem causas diversas. Assim, importa existir, além do que move ao bem particular de cada um, o que mova ao bem comum de muitos. Pelo que, em todas as coisas ordenadas se acha algum direito mais elevado. E, no mundo dos corpos, o primeiro corpo, isto é, o celeste, dirige os demais, por certa ordem da divina providência, e a todos os corpos os rege o corpo, e, entre as partes da alma, o irascível e o concupiscível são dirigidos pela razão. Também, entre os membros do corpo, um é o principal, que todos move, como o coração, ou a cabeça. Cumpre, por conseguinte, que, em toda multidão, haja um regente.

Assim como sucede em certas coisas ordenadas a um fim, andar direito ou não, também no governo da multidão se dá o reto e o não-reto. Uma coisa dirige-se retamente, quando vai para o fim conveniente; não-retamente, porém, quando vai para o fim não-conveniente. Um, porém, é o fim conveniente à multidão dos livres, e outros à dos escravos; como o livre é a sua própria causa, ao passo que o escravo, no que é, pertence a outrem. Se, pois, a multidão dos livres é ordenada pelo governante ao bem comum da multidão, o regime será reto e justo, como aos livres convém. Se, contudo, o governo se ordenar não ao bem comum da multidão, mas ao bem privado do governante, será injusto e perverso o governo. Dá ameaçar o Senhor tais governadores, por Ezequiel (34,2): “Ai dos pastores que a si mesmos se apascentavam (como procurando os seus próprios interesses) – porventura não são os rebanhos apascentados pelos pastores”. Em virtude, devem os pastores buscar o bem do rebanho e os governantes o bem da multidão a eles sujeita...forma parte do conceito de rei ser o que preside,o pastor que busca o bem comum da multidão e não o seu próprio.

SANTO TOMÁS DE AQUINO, De Regno (Do Regime dos Príncipes), II. 4–5. 7. Escrita aproximadamente no ano 1267.

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