Mostrar mensagens com a etiqueta SCHUMAN. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta SCHUMAN. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de outubro de 2008

Dialogo com um Cético

O jornalista e doutor em literatura René Lejeune apresenta um breve diálogo fictício dele próprio com Pirro (365-275), pai do ceticismo. O grego questiona qualquer possibilidade de um comportamento ético na política, enquanto o francês vai além da afirmação ética, defendendo que se pode ser santo ao viver a política como vocação inspirada por uma profunda fé cristã. Lejeune fala de primeira mão, pois foi colaborador de Robert Schuman de 1945 até 1958.

PIRRO: Ousa falar de “santidade na política”! Acaso este não é um terreno por excelência de intriga, manobras, especulações e de confusão? Não é um auto-serviço de ambições pessoais tão devoradoras? “Santidade na política”: expressão quimérica e aberrante. Estes dois termos são inconciliáveis.

RENÉ LEJEUNE: Confesso que há poucas luzes neste espaço tenebroso. Lugar onde os choques de interesses se atropelam: interesses privados e públicos, profissionais e corporativistas, nacionais e internacionais... No entanto, apesar de tudo isso, o que é no fundo a política? Não é a organização do bem comum, com o propósito de realizar cada vez mais a solidariedade e a justiça no seio de uma comunidade nacional, regional ou local? Não é uma coisa santa, no sentido em que a Bíblia, Palavra de Deus, fala de “lugar santo”, “assembléia”, “aliança santa”?

PIRRO: Puro idealismo e visão perigosa! Confunde você um princípio abstrato, uma ideologia, suavidade de natureza religiosa, com a realidade inelutável, os fatos concretos e tangíveis, projeção da natureza humana em que o instinto se impõe a razão.

RENÉ LEJEUNE: Tenho em conta as cargas da realidade e do aparente determinismo da natureza humana. Não obstante, se você olhar objetiva e globalmente sobre nossa sociedade, não tem havido enormes progressos, graças à solidariedade e justiça ao longo do século XX especialmente, apesar das terríveis recaídas nas barbáries? Esses avanços não são uns dos vários frutos da política?

PIRRO: É certo. Mas a que preço! Mantenho que a política é um campo de manobras de leões e raposas. Maquiavel é seu dono, e não Gandhi. Maomé é seu motor, e não o evangelho. Se bem que é verdade que na política produz alguns frutos. Faço o desafio de que me fale de um de seus atores que tenha praticado de tal maneira que, sem caricatura e fábulas, se pode falar de “santidade na política”.

RENÉ LEJEUNE: Desafio aceito! Há um homem de Estado Francês cuja vida e ação política é uma boa ilustração. Que contribuiu de maneira determinante a orientar uma época complicada da história. O ato político que aceitou com audácia em 9 de maio de 1950 se abre às nações, no horizonte do terceiro milênio depois de Jesus Cristo, perspectivas novas de coexistência pacífica e de estreita cooperação. Seu nome: Robert Schuman...

RENÉ LEJEUNE, Robert Schuman: Pere de l'Europe, París, 2000

Leia mais...

Schuman, uma Vocação Política

Robert Schuman nasceu em 29 de junho de 1886 em Clausen, Luxemburgo. De família humilde o jovem frequentou a escola primária e secundária em Luxemburgo. Tendo realizado estudos superiores de Direito na Alemanha, em Berlim, Munique, Bonn e Estrasburgo, ele abriu um gabinete de advocacia em Metz em junho de 1912. Dois anos mais tarde, a Primeira Guerra Mundial começou; Robert Schuman foi dispensado por problemas de saúde.

Schuman admirava sua mãe Eugenia Duren, que era luxemburguesa de Bettemburgo e que se casara em 1884 com Jean-Pierre Schuman. Ele havia passado a maior parte de sua infância com ela, pois seu pai trabalhava o dia todo no campo. Sua mãe era muito sensível e piedosa, fato que iria marcar profundamente a vida e atos de Robert Schuman.

Sentindo-se chamado à política, Robert Schuman entrou em 1919 no Parlamento como deputado da Moselle graças a reunificação de Alsácia-Lorena à França. Tendo desempenhado, com muita coragem e força, a defesa de projetos que contribuiriam para o bem comum, Schuman era admirado por sua coerência e alcançou grande prestígio até mesmo entre seus adversários. Era seu costume participar cotidianamente da santa missa antes de ser dirigir ao parlamento.

Em 1939, uma nova guerra se iniciou e, em março de 1940, Robert Schuman foi nomeado subsecretário de Estado para os Refugiados. Foi preso pela Gestapo em Lorena, sendo colocado secretamente na prisão de Metz em 14 de setembro do mesmo ano, dia de Nossa Senhora das Dores. Neste período de clausura, Robert Schuman passou os dias como um monge acompanhado de seus seletos livros. Schuman via tudo com muita serenidade e, segundo ele, estes dias de prisão foram um período de “diálogo interior permanente”. Tendo sido mais tarde transferido para Neustadt, no Rheinland-Pfalz, em 13 de abril de 1941, ele conseguiu fugir e alcançar a zona livre em agosto de 1942, passando pela abadia de Ligugé.

Quando a França se tornou de novo livre, retomou a carreira política. Foi ministro das Finanças em 1946, presidente do Conselho de Ministros de 1947 e 1948; ministro dos Negócios Estrangeiros durante quatro anos. Mais tarde Robert Schuman tornou-se ministro francês das Relações Exteriores. Foi neste cargo que, em 9 de maio de 1950, com uma histórica declaração, propôs aos Estados que tinham combatido durante a Segunda Guerra Mundial que fosse colocada em comum a produção de carvão e de aço, que fora a causa de seculares inimizades entre a França e a Alemanha. Da reconciliação entre estes dois países, nasceu a primeira Comunidade Européia, inspirada em princípios cristãos, e dessa, mais tarde, a atual União Européia. Nessa ação, Schuman foi ajudado por dois fervorosos católicos: Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi. A sua declaração de 9 de maio foi histórica e marcou profundamente a Europa e a humanidade. Pois, o que ele fez foi colocar lado a lado nações que haviam se combatido na Segunda-Guerra mundial em busca dos mesmos objetivos, o que era impensável até então. Schuman acreditava na providência divina e, neste caso, ele realmente foi um instrumento dela. Segundo ele, “a paz mundial não poderá ser garantida sem a criação de esforços proporcionais aos perigos que a ameaçam. Para manter a paz, é indispensável a contribuição de uma Europa vital e bem organizada”.

No seu livro Pela Europa, Schuman escreveu: "A democracia nasceu no dia em que o homem foi chamado a realizar, na sua vida temporal, a dignidade da pessoa humana, na liberdade individual, no respeito pelos direitos de cada um e com a prática do amor fraterno para com todos. Jamais, antes de Cristo, tinham sido formuladas tais idéias". Acrescentava que "a democracia será cristã ou não será democracia. Uma democracia anticristã será uma caricatura, que resultará em tirania ou na anarquia".

Robert Schuman morreu em 4 de Setembro de 1963 e por ter vivido a santidade na vida na política, em 9 de junho de 1990, Mons. Raffins, Bispo de Metz abriu o processo de beatificação na capela das irmãs servas do Coração de Jesus. Atualmente encontra-se na Congregação para as Causas dos Santos na Santa Sé para exame. No dia 3 de março de 2004, João Paulo II declarou que "temos de estar presente nos grandes debates que têm lugar no nosso país e sobre o futuro da Europa, contribuindo para dar uma alma para o Continente, como Robert Schuman teria desejado, cujo processo de beatificação será concluído muito em breve". É através do exemplo político de Robert Schuman que se pode falar “sem caricatura e fábulas” em “santidade na política”.

Nota biográfica preparada por Diego da Silva, membro do nuec,
Belo Horizonte, Outubro de 2008

Leia mais...

Santos na Politica?

Entrevista realizada pelo jornalista Gianni Cardinale ao cardeal José Saraiva Martins. O prelado português foi prefeito da Congregação para as Causas dos Santos de 1998 até 2008. O texto foi publicado pela revista italiana 30 Giorni, na sua edição de Setembro de 2004.

GIANNI CARDINALE: Os cinqüenta anos da morte de Alcide De Gasperi, cujo processo de beatificação está em andamento - ainda em nível diocesano -; o acesso às honras dos altares de Alberto Marvelli, membro da Ação Católica e assessor da Democracia Cristã de Rímini nos primeiros anos do pós-guerra; a beatificação de Carlos de Habsburgo, último imperador da Áustria: o conjunto desses acontecimentos oferece o ponto de partida para discutir as relações entre santidade e política... Eminência, a política é também a arte do compromisso. Santidade e compromisso são compatíveis?

JOSÉ SARAIVA MARTINS: O uso da palavra “compromisso” pode ser fonte de confusões. Poderia também ser entendida como negociata, até mesmo em prejuízo da verdade e da justiça. E, se fosse assim, toda a classe política seria automaticamente desqualificada. Todavia, é verdade que, na atividade política, quase nunca é possível alcançar tudo o que se pretende. Em primeiro lugar, Deus estabeleceu uma ordem do universo na lei eterna ou direito natural, mas, dentro dessa moldura, quis a colaboração livre e responsável dos homens, segundo os ditamos da própria consciência retamente formada, ao levar a termo no tempo a obra da criação. A observância da lei natural e a liberdade responsável do indivíduo são, portanto, elementos inseparáveis, e constituem juntos o estatuto desejado por Deus para o agir do cristão na esfera temporal. Se as soluções para todos os casos possíveis estivessem preestabelecidas, a liberdade e, portanto, também a dignidade do homem seriam deixadas de lado, e nem se poderia mais falar de História, mas apenas de um rígido determinismo. Ora, quando há mais de uma posição legítima, a ninguém é lícito tentar impor aos outros as próprias opiniões, e será preciso chegar a uma decisão que seja o resultado de um confronto honesto e aprofundado dos diversos pareceres.

GIANNI CARDINALE: Portanto, para um político católico é possível aprovar leis não perfeitamente aderentes à doutrina católica?

SARAIVA MARTINS: Nos parágrafos 73 e 74 da encíclica Evangelium vitae, João Paulo II sugere a hipótese de um parlamentar que, diante de uma lei lesiva ao direito à vida que não pode ser completamente revogada - e o mesmo vale para as leis contrárias à dignidade e à estabilidade da família ou para tantas outras semelhantes -, pode e às vezes deve “oferecer o próprio apoio a propos­tas que visassem limitar os danos de uma tal lei e diminuir os seus efeitos negativos no âmbito da cultura e da moralidade pública”, desde que seja clara e conhecida por todos sua oposição pessoal a tal lei. Eu me limito a acenar à questão, que exigiria outras explicações. Mas nem nesse caso penso que se possa falar de compromisso.

GIANNI CARDINALE: É possível para os políticos serem também santos?

SARAIVA MARTINS: Certamente. O chamado universal à santidade diz respeito obviamente também aos políticos, como afirma o Concílio Vaticano II na constituição apostólica Lumen gentium: “É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”. O fato de o chamado se realizar já é um outro passo. A atividade dos políticos deve estar a serviço do bem comum. É evidente, portanto, que quem a exerce pode se santificar e também que a própria atividade política pode e deve ser santificada. É, portanto, motivo de alegria o fato de que muitos leigos participem da política ativamente, segundo suas condições e possibilidades. Não por acaso, Paulo VI definia a política como “a mais alta forma de caridade”.

GIANNI CARDINALE: As causas de canonização dos homens políticos são mais complicadas do que as outras?

SARAIVA MARTINS: Por si mesmas, não são mais complicadas. A Igreja não canoniza um sistema político, mas a pessoa que praticou heroicamente as virtudes e que, portanto, no campo específico da política, agiu em conformidade com a fé, com verdadeira competência e na busca contínua do bem da sociedade, não dos próprios interesses. A maior complexidade pode vir, como também em outras causas, quando se trata de políticos cuja atividade teve ressonância em nível nacional ou internacional, em cujo caso será preciso situar a pessoa em seu contexto histórico e social, ao passo que em outros casos - pense-se, por exemplo, numa mãe de família que viveu o cotidiano num âmbito geográfico restrito - bastará uma descrição mais geral do ambiente no qual transcorre a vida do candidato à canonização.

GIANNI CARDINALE: O santo patrono dos políticos é São Tomás Morus. Poderíamos pensar, assim, que o martírio é o único caminho para um político se tornar santo...

SARAIVA MARTINS: Os políticos, também aqueles que aspiram à santidade, podem ficar tranqüilos. Não é necessário que aspirem necessariamente ao martírio... Qualquer fiel cristão que se tenha dedicado à política pode ser declarado santo. Pessoalmente, considero que Tomás Morus poderia ter sido canonizado mesmo que não tivesse sido mártir.

GIANNI CARDINALE: Há figuras de políticos santos que lhe são particularmente caras?

SARAIVA MARTINS: Eu não gostaria de exprimir preferências. Permito-me apenas assinalar a figura do último “político” beatificado, Alberto Marvelli, o qual, além de ser ex-aluno salesiano e um associado da Ação Católica, foi também assessor da Democracia Cristã no município de Rímini.

GIANNI CARDINALE: O que o impressionou particularmente na figura do beato Marvelli?

SARAIVA MARTINS: Duas coisas em particular. Em primeiro lugar, sua entrega total e sem medo a Jesus Cristo, não de maneira abstrata, mas tendo sempre em mente a frase de Jesus: “O que fizerem ao menor de meus irmãos, o tereis feito a mim”. Marvelli foi um grande apóstolo dos pobres. E depois a percepção do fato de que não é a habilidade ou a ação do político, mas somente a graça do Senhor que provê o bem de um Estado. Escrevia o beato Alberto: “Não fizemos nada pelas eleições, temos de trabalhar em profundidade. Em alguns lugares, trabalha-se muito, mas não se faz nada. É preciso trabalhar na graça de Deus...”.

GIANNI CARDINALE: Algumas declarações que o senhor fez em favor da santidade de De Gasperi, durante o “Acampamento dos jovens” organizado no santuário de San Gabriele dell’Addolorata, em Abruzzo, no final de agosto, viraram notícia. O senhor quer acrescentar alguma coisa?

SARAIVA MARTINS: Para lhe responder, recorro às palavras do beato cardeal Ildefonso Schuster, que, há cinqüenta anos, morreu poucos dias depois de De Gasperi. Quando o Arcebispo de Milão recebeu a notícia da morte do estadista de origem trentina, comentou: “Desaparece da terra um cristão humilde e leal que deu da sua fé testemunho inteiro em sua vida particular e na vida pública”. Para uma pessoa medida como Schuster, parece-me um elogio significativo, que confirma sua liberdade de juízo. Por ocasião do cinqüentenário da morte, vêm sendo destacadas mais as grandes qualidades de De Gasperi, sua partilha plena e convicta com Robert Schuman, cuja fase diocesana do processo de beatificação terminou, do projeto de uma verdadeira integração européia. As causas de beatificação de ambos, porém, são úteis para aprofundar ainda mais a sua arraigada e vivida espiritualidade cristã. Li com interesse o que o cardeal Angelo Sodano sublinhou, ou seja, como em De Gasperi “virtude religiosa e virtude civil se uniram a serviço do compromisso político”. Há uma frase muito bela, que hoje tem um caráter profético, escrita pelo servo de Deus Alcide a sua esposa, Francesca: “Há homens de posse, homens de poder, homens de fé. Eu gostaria de ser lembrado entre estes últimos”.

GIANNI CARDINALE: As causas de beatificação de políticos modernos parecem voltar-se exclusivamente a personalidades de origem popular/democrata-cristã (Marvelli, Schuman, De Gasperi...). Deve ser necessariamente assim?

SARAIVA MARTINS: Graças a Deus, a santidade não tem carteirinha. De nenhum gênero. A única lei de Deus válida para um político cristão baseia-se em dois eixos: de um lado, a lei natural entendida segundo as declarações do magistério da Igreja, que admite uma pluralidade de soluções concretas em cada caso; por outro, a decisão livre e responsável do interessado, que, na busca do bem da sociedade, segue os ditames da consciência retamente formada. A Igreja, portanto, nunca pode canonizar um sistema político concreto, nem, obviamente, pode dar preferência a particulares formas de partido. O sujeito da canonização é o político que, em sua atividade, pratica as virtudes em grau heróico, entre as quais o reto exercício da sua liberdade.

GIANNI CARDINALE: Em 3 de outubro (de 2004) foi beatificada uma figura política de outros tempos, Carlos de Habsburgo, último imperador da Áustria. O fato de ser um nobre foi uma vantagem ou desvantagem para os procedimentos de sua causa de beatificação?

SARAIVA MARTINS: Todos os membros da Igreja são filhos de Deus convidados a viver a vida de Cristo e participantes do mesmo chamado universal à santidade. Essa é a única nobreza que conta diante do Senhor. Portanto, com relação a ele não houve nenhuma particular deferência de natureza mundana.

GIANNI CARDINALE: A beatificação de Carlos de Habsburgo não poderia suscitar perplexidade em populações que não se lembram com prazer do Império Austríaco?

SARAIVA MARTINS: Com a proclamação a beato de Carlos de Habsburgo, declara-se a santidade de vida de um fiel cristão que praticou as virtudes em sua situação de imperador. Isso não comporta nenhum juízo de mérito acerca da bondade de suas opções concretas em matéria política. A causa não diz respeito ao Império Austro-Húngaro, mas a uma pessoa. Nem diz respeito a um particular sistema político. A Igreja, repito, não canoniza nenhuma forma institucional...

GIANNI CARDINALE: Nem a democracia?

SARAIVA MARTINS: Nem a democracia é perfeita. Basta lembrar o simples fato de que Adolf Hitler foi eleito democraticamente... A Igreja, como diz o Papa na Centesimus annus, respeita a legítima autonomia da ordem democrática e não tem autoridade para exprimir preferências por uma ou outra solução institucional.

Leia mais...